Os Manuscritos de Aspern
ISBN: 9789898566072
«Henry James [1843-1916] escreveu ao contrário dos êxitos literáriosdo seu tempo. Numa época de leitores a preferirem histórias comsurpresas de percurso, pôs um grande talento de escritor ao serviço de uma corrente calma, discreta e a espalhar-se num extenso número depáginas, entravada por análises psicológicas de personagensdistanciadas, na cultura e nos confortos, do homem mais comum nessefinal do século XIX. E se o século seguinte o compreendeu como bomexemplo do construtor da obra de arte literária no mais nobre sentidoque a expressão pode sugerir, a solicitar do leitor uma sensibilidadeidêntica à exigida na apreciação de uma sonata ou de um quadro, durante a sua vida só teve êxitos pouco generosos e reticentes. [à]Dir-se-á, porém, que este Henry James sofredor recebia com desdém oentusiasmo alheio pelas suas ficções, e via-o como resultado dacedência do texto ao que era um mais trivial gosto do público. Sentimo-lo encolher os ombros aos elogios que valorizavam The Turn ofthe Screw, e bem podia Oscar Wilde designá-lo como surpresa «enorme». Numa carta a H. G. Wells acusou o seu texto de «irresponsável» e deapenas ser «um pedaço de engenhosidade pura e simples». E quandopublicou Os Manuscritos de Aspern, uma das suas ficções curtas maisbrilhantes (para o seu biógrafo Leon Edel, a melhor de quantasescreveu), aos acidentais entusiasmos contrapôs esta água fria: «nãopassa de uma anedota», verdade apenas de fundo porque Os Manuscritosde Aspern repensam e dão dimensões nostálgicas, amargas e perversas ao caso verídico que determinou a sua génese e em conversas de salãopôde ser contado com os picantes de uma anedota.» [Aníbal Fernandes]