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O livro breve a que António Vera deu o título de Apostila não deveráser considerado um livro póstumo: deverá, isso sim, ser compreendidocomo o texto fundador de uma obra poética completa, obra que teve oseu início substancial (ou, se quisermos, reinício) em 1998, ano dapublicação de Cursivo Menor. Poderá isto parecer um paradoxo, àsemelhança de outros paradoxos que povoam a vida e a obra do seuautor, mas, em boa verdade, não o é: em António Vera encontramos oparadoxo de uma juventude tardia numa existência supostamente longa, vislumbramos o princípio da inocência numa personalidade supostamenteamadurecida pela contingência do mundo, um mundo cuja crueza há muitonão lhe era estranha devido ao choque cruel provocado pelo suicídio de sua mãe, ocorrido quando o poeta ainda mal saíra da infância, encontramos o gosto intenso e apaixonado de um sentimento amorosogenuíno num momento de doença e de fragilidade física, encontramos, enfim, o vicejar de uma obra poética na qual a sensibilidade maisprofunda se alia a uma invulgar lucidez. É neste último aspecto, deresto, que repousa a matriz essencial de tudo aquilo que escreveu, permitindo-lhe distinguir a sua arte por entre a solitária, emboraprolixa, manifestação poética do seu tempo. [José Fernandes Tavares]