Mais Património
ISBN: 9789727805242
O título escolhido, Mais Património, assim apresentado sem outrasinformações, sugere-nos a imensidão de um rio sem limites, de um marsem fronteirasà Carece, pois, desde logo, do conforto de umaexplicação que lhe marque os contornos e lhe precise o objecto. Comefeito, a riqueza e a diversidade do património, praticamenteinesgotáveis, tornam-se insusceptíveis de uma completa apreciação numescorço como aquele a que nos propomos. Na verdade, Mais Patrimónionão excede a amplitude do "trabalho de salvaguarda", vivido no terreno aquando do exercício de funções autárquicas, tanto no âmbito dosconcelhos de Santarém e de Lamego, como no domínio da Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico. Para fundamentar assuas propostas, o autor oferece nesta obra úteis informações sobre alegislação portuguesa actual, recorda a acção de Alexandre Herculano, estuda dois momentos especialmente dramáticos para a preservação dopatrimónio português - o Terramoto de 1755 e a extinção das ordensreligiosas em 1834 -, além de referir os nomes e acções de outroslutadores pelo Património, como Mouzinho de Albuquerque e Mendes Leal. Finalmente, mostra como surgiu e se desenvolveu, na teoria e naprática, o conceito de "Património Mundial", por iniciativa da UNESCO, desde a proclamação da Carta de Atenas (1931) até aos nossos dias. Em apêndice, oferece um elenco de diplomas legislativos que fixam oquadro legal português desde 1901 até hoje, e por fim um elencobibliográfico de estudos acerca do Património. Não é preciso mais doque este breve sumário de conteúdos para recomendar a obra. Masparece-me também oportuno referir que ela aparece cinco ou seis mesesdepois da destruição das ruínas e vestígios arqueológicos de Palmira, um dos sítios mais veneráveis do Património Mundial, expoente máximodo encontro pacífico das civilizações do Oriente e do Ocidente, e, simultaneamente, do papel que a Arte e o Pensamento tiveram nodesenvolvimento espiritual do Homem. A sua destruição voluntáriasignifica que a barbárie pode surgir ou ressurgir a cada momento, porvezes com uma violência inaudita, e que as aquisições espirituais nãosão definitivas. Com efeito, o atentado seguia-se à destruição dosbudas gigantes de Bamiyan perpetrada pelo governo taliban do Afeganistão em 2001. Estes acontecimentos tão recentes fazemestremecer qualquer pessoa civilizada. Põem em causa o conceito depatrimónio como legado simbólico de valores transmitidos àcolectividade de geração em geração. Mas convém também lembrar que anoção de património colectivo, de bem comum, alheio à propriedadeprivada, condena igualmente quem dele se apodera e o transfere para as suas colecções particulares. Como se sabe, também algunscoleccionadores internacionais aproveitaram a dispersão de peçasparticularmente valiosas dos museus iraquianos, por ocasião da Guerrado Iraque, para delas se apoderarem, sem que os organismosresponsáveis pela sua salvaguarda tivessem podido intervir.