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Talvez a caricatura e o cartoon político sejam a forma mais eficaz dacrítica jornalística. Não é por acaso que a história de boa parte dafase final da monarquia (entre 1880 e 1902) pode ser acompanhadaatravés do Álbum das Glórias, desenhado por esse antepassado de todosos cartoonistas portugueses que foi o grande Rafael Bordalo Pinheiro. A crítica mordaz de Bordalo mantém-se e avoluma-se agora, como sempreacontece em tempos de crise. Na vertente do humor corrosivo que é acrítica política, tantas vezes injusta mas sempre necessária, conseguem-se janelas de liberdade importantes através do desenho e dotraço artístico. Basta percorrer os desenhos relativos ao Governo de Sócrates e à sua sucessão, bem como os que dizem respeito a Belém, para me convencer (a mim próprio, pelo menos, se mais ninguém meacompanhar no raciocínio) de que algumas caras que lá encontramos têmmais hipótese de chegar à posteridade à boleia de um artista do que em função dos actos praticados em prol da Pátria. Mas adiante... Jáoutros desenhos captam momentos muito precisos. Por exemplo, aquele Obama com uma tabela de basquete tão alta e tão longe do seuobjectivo, é o retrato de uma desilusão, como os diversos Khadaffi são símbolos de uma esperança. O futuro dir-nos-á se essa desilusão eesperança se conformaram, ou pelo contrário, serão os cartoons atornar-se incongruentes. Mas é a crise, a maldita crise, espelhadatambém no Governo actual, de Passos Coelho, bem como nos episódios jáde si caricaturais como são todos os que envolvem Alberto João Jardimque, quanto a mim, espelham de forma mais luminosa a realidade. Porque, paradoxalmente, é no esconjuro da desgraça que se encontramuito do melhor humor, visível no tango em que Merkel sufoca Sarkozy, como no país que não é para novos, na tabuleta fúnebre da televisãopública ou nos esqueletos no armário dos partidos do poder. [Henrique Monteiro] Este livro foi publicado por ocasião da mostra Cartoon XiraÆ2011, de 18 de Fevereiro a 25 de Março de 2012. Com a organização da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Celeiro da Patriarcal, Vila Franca de Xira.