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«O desenho, tantas vezes considerado como excepção ou intervalo, momento de repouso na produção de um artista, constitui-se em Portugal como uma disciplina de espectro muito alargado, não sendo no entantoraros os casos de artistas que embora o pratiquem de forma continuada, por esta ou aquela razão não o tornam visível. Assim sucede com Joséde Guimarães, artista cuja posição de franca notoriedade no panoramaartístico contrasta de forma gritante e paradoxal com odesconhecimento de um tão relevante segmento do trabalho, quepermanecia até hoje inédito na sua quase totalidade. Neste livroapresentam-se desenhos que cobrem um período de quase cinquenta anos. Aquilo que é dado a ver é um conjunto de trabalhos extraordinariamente diversificado, marcado pela experimentação, pela liberdade e pelavolúpia do fazer, onde se afina a mão e forma o pensamento. Entre opassatempo e a descoberta de si, o combate ao tédio e a lentaconstrução de uma linguagem própria, o desenho é para José de Guimarães o território por excelência de tematização damultiplicidade. Entre desenhos realizados com máquina de escrever ou a tinta projectada com aerógrafo, um largo conjunto de desenhoseróticos inspirados das gravuras de Hokusai, desenhos de construçãolenta ou esquissos de aparência infantil em que à mão é dada aliberdade e a vertigem da procura, tudo aqui se manifesta no júbilo da desordem. Gruta e Crânio - Desenho 1963-2011 constitui-se assim comouma surpreendente oportunidade de revisitação do trabalho de José de Guimarães através do desenho, a "maior tentação do espírito", segundo Paul Valéry.» [Nuno Faria]